O Corpo Eléctrico do Grupo Dançando com a Diferença

de Filipe Ferraz

2008

O Corpo Eléctrico do Grupo Dançando com a Diferença

 

 

 

Dentro de um autocarro, de noite, numa avenida em Lisboa. Lá à frente vê-se a Elsa, esticada com o tronco sobre o corredor do autocarro, a olhar para trás. Não se percebe se está triste, ou simplesmente pensativa. Nas suas costas, a janela do autocarro parece um enorme ecrã de cinema, e os lampiões sucedem-se. As luzes lá de fora são quentes, laranjas, as de cá de dentro azuis; mais parece que há dois mundos, um à frente do outro. Ouve-se em off a voz de Clara Andermatt, uma das mais conceituadas coreógrafas portuguesas: "Acho que é 50/50, completamente. Não consigo ver essa diferença, entre o corpo, a alma, e a mente."

A Ilha da Madeira, Portugal, não é dos melhores sítios que existem para se nascer deficiente. É uma ilha no Atlântico Norte com 270 mil habitantes, tão acidentada que se torna difícil percorrer 100 metros que não terminem em declive. Mas quando o ‘O Corpo Eléctrico’ começa, o Grupo Dançando com a Diferença já partiu.

O Grupo Dançando com a Diferença é uma companhia de dança contemporânea que junta bailarinos com e sem deficiência. Mas não seria possível dar a conhecer estas pessoas dentro de uma ilha. O fundador do Grupo, Henrique Amoedo, é brasileiro, fundador dos grupos inclusivos Roda Viva e Mão na Roda, em S. Paulo, Brasil. Os coreógrafos que criaram o repertório do Grupo são dos mais conceituados de Portugal e do Brasil: Clara Andermatt, Rui Horta, Ivonice Satie e Henrique Rodovalho.

E os bailarinos: o Toninho por exemplo, é uma pessoa que não cabe na sua casa onde não entra uma cadeira de rodas, o Telmo não cabe no meio onde nasceu, onde as crianças pediam esmola e mergulhavam para apanhar libras atiradas ao mar por estrangeiros à procura do ‘exótico’. A Viviana chega mesmo a dizer ‘o mundo cá for a está a ficar cada vez mais apertado, mas o mundo da dança não’.

Estamos em Moscovo, em Viana do Castelo, nos espectáculos do Brasil. O grupo é hilariante em viagem, não há nada como uma deficiência para compor uma boa piada.

O grupo não cabe na ilha, está visto, mas talvez não caiba sequer numa cultura ocidental que criou todos os seus cânones sobre o modelo do Homem Ideal, e não sobre a realidade do homem. O Rui Horta explica essa ideia melhor que ninguém numa sequência em edição paralela onde soldados portugueses, nazis alemães, atletas olímpicos e bailarinos do grupo dançando com a diferença, parecem dançar a mesma coreografia: ‘Antes da revolução (de 25 de Abril de 1974) o corpo era um corpo morto, imóvel, eu só começo a dançar porque acontece o 25 de Abril. O próprio Corpo Olímpico defendia uma ideia de Estado. Na dança clássica, os movimentos eram técnicos, estilizados. A linguagem contemporânea é mais vasta, mais democrática, e lida exactamente com esta ideia de corpo que existe, que existiu, mas principalmente com o Corpo em Si’. 

Uma das últimas imagens é da Barbara. Tem 13 anos, é careca, e a convicção de ser a ‘segunda melhor bailarina do grupo’. Não conseguimos perceber muito bem o que a Bárbara disse, enquanto passava a mão na barriga. ‘Está na barriga, a dança?’, perguntamos. Bárbara sorri, ‘não, está no corpo todo, o corpo sente a dança toda’… Depois pedimos à Bárbara para ensinar-nos a dançar e ela aceita. Os seus movimentos são precisos, disciplinados, as suas explicações claras. De repente duvidamos, talvez haja outra maneira de perceber o mundo, que não esta que se serve exclusivamente da lógica.

 Porque todos nascem com o corpo que calha, o resto é o que se faz dele, é a electricidade. Estamos a viver no melhor tempo do mundo, em que cada corpo tem um homem dentro, em que se sente o mundo com todos os seus corpos. ‘O Corpo Eléctrico’ é como a vida, dá vontade de rir e de chorar, às vezes das duas coisas ao mesmo tempo.

Talvez amanhã o Toninho volte para a sua casa, que mais lhe parece uma prisão. Mas este documentário termina onde começa, em trânsito. Viver é violência, não há nada mais violento que um coração, que bate um tempo para descansar outro. Um corpo só volta para casa no fim, quando a electricidade se apaga. 

 

 

Género: Documentário

Duração: 80 minutos

País: Portugal

Idioma Original: Português

Ano: 2008

Produtora: Die4films

Realização: Filipe Ferraz

Produção: Marta León

 

O Corpo Eléctrico do Grupo Dançando com a Diferença

O Corpo Eléctrico do Grupo Dançando com a Diferença

Publicado a 09 Abril, 2018

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